Pesquisadores de todo o mundo relatam recuperação parcial das espécies de árvores em poucas décadas, mas biodiversidade pode estar comprometida

Um estudo internacional sobre florestas tropicais traz certo otimismo sobre a recuperação de áreas desmatadas. A partir de observações de ecólogos em todo o mundo, foi relatado que as espécies de árvores se regeneram em questão de décadas, formando as chamadas florestas secundárias. A perda de espécies, por outro lado, é inevitável.

Os pesquisadores observaram como ocorre o surgimento de árvores nos espaços degenerados por ação humana. Eles coletaram espécies de florestas tropicais maduras com secundárias para levantar dados e identificar a que ponto a nova vegetação mantém a diversidade original. Foram observadas 1.800 parcelas de cobertura vegetal, analisadas em conjunto.

Os resultados foram publicados na revista Science Advances, em artigo que contou com a participação de grupos independentes da América Latina, Europa e Estados Unidos, liderados por uma equipe da Universidade de Wageningen, na Holanda. O Brasil foi representado por Pedro Bracalion, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, que observou os processos na Mata Atlântica e região amazônica. A situação da primeira é crítica – hoje, apenas 15% de sua área original está preservada, de acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica.

Quando uma área desmatada é abandonada – geralmente pela falta de potencial econômico – um processo de regeneração gradual se inicia, resultando em nova área de florestas secundárias, que repõe a anterior. O estudo aponta que na América Latina os resultados são rápidos e significativos. Em menos de duas décadas, 80% do número de espécies pode ser recuperado.

Entretanto, as expectativas de recuperação integral são baixas a curto prazo. “Apesar da quantidade alta de espécies, elas são diferentes da floresta original”, conta o pesquisador. O resultado revela que a biodiversidade de biomas tropicais pode ser comprometido, apesar da manutenção de cobertura vegetal.

Ele também destaca o perfil das árvores observadas que retornam ao habitat. “A maioria são espécies generalistas. Outras, mais sensíveis a modificações, dificilmente vão chegar à área de degeneração.”

Florestas secundárias não substituem as maduras, de acordo com pesquisador – Foto: George Campos/USP Imagens

Compensação ambiental

Os dados levantados demonstram que não há equivalência ecológica entre os espaços originais e os regenerados. Apesar da quantidade de espécies recuperadas, a riqueza destas é comprometida.

De acordo com o professor, isso representa um alerta na maneira como agem os responsáveis pela política de compensação ambiental. Para ele, reflorestamentos por equivalência de área danificada não representam uma ação efetiva para reverter os efeitos da perda de florestas maduras de maneira íntegra. Porém, a técnica ainda é predominante em políticas públicas de recuperação ambiental. “É preciso uma mudança de paradigma: mensurar perdas e ganhos, entender o que será perdido. Reconhecer que certas ações são irreversíveis”, diz.

Obras grandes como a construção de hidrelétricas, que exigem alagamento de grandes áreas de mata, trazem impactos duradouros. Nesses casos é exigido planejamento para entender o bioma prejudicado, identificar espécies raras e replantá-las. Ao mesmo tempo, a recuperação vegetal é uma solução espontânea e mais barata do que o plantio de mudas, mas representa algumas desvantagens para manter a diversidade de espécies nativas e sensíveis. “É possível recuperar a cobertura florestal, mas há perda de espécies e muitos prejuízos à biodiversidade. As florestas secundárias não substituem as maduras.”

Com informações da Divisão de Comunicação da Esalq

Fonte: Yasmin Oliveira, Jornal da USP

Categorias: Ciência

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